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Geopolítica e Política

Lusa - Lusística - Mundial

Geopolítica e Política

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Balanço

Um artigo de Jaime Nogueira Pinto

26.10.25 | Álvaro Aragão Athayde

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O HUMOR UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO
Os cartoons da Revolução (1974-1976)

 

 

Os homens do sistema


Como Afonso Costa foi o símbolo da Primeira República e Salazar do Estado Novo, o grande símbolo do regime e do sistema, para o bem e para o mal, foi e é o Dr. Mário Soares.


Por Jaime Nogueira Pinto
Publicado no Observador às 00:18 de 25 de Outubro de 2025 


Os sistemas políticos têm os seus valores, as suas instituições, as suas retóricas, as suas práticas e os seus símbolos. E acabam também por encarnar nos políticos que os dominam e moldam.

Afonso Costa e a Primeira República

Na Primeira República, a grande figura do sistema, o homem do regime, foi, incontornavelmente, Afonso Costa; um livre-pensador ao modo dos radicais franceses, inimigo jurado do Catolicismo e fiel à Maçonaria. Costa era um político com sentido de poder, inteligente, bon-vivant. Dizia-se que a República não podia viver com ele nem sem ele. Do mesmo modo que perseguiu os monárquicos e católicos, reprimiu, à esquerda, proletários e sindicalistas. Criou um sistema em que as eleições se ganhavam na secretaria, através da legislação eleitoral. Havia liberdade, em princípio, mas os jornais monárquicos e católicos eram assaltados “pelo povo”, sempre que se excediam.

Foi o criador do sistema e depois do sidonismo viu, com lucidez, que o sistema criado já não tinha grande viabilidade. Nomeado representante português às negociações de Versalhes, foi ficando por Paris, exercendo advocacia de negócios, e ali viria a morrer, em 1937, eterno conspirador contra a Ditadura Militar e o Estado Novo.

Os novos regimes têm geralmente na sua génese o descontentamento com a disfuncionalidade do que está em vigor: a generalidade dos cidadãos não se preocupa muito com os princípios ideológicos do poder, enquanto o poder garantir lei e ordem e uma economia em que possam viver, criar os filhos e melhorar de vida.

Quando os sistemas não garantem isto e se fecham, como a Primeira República se fechou nos anos Vinte, entram em acção forças de fora do sistema político. E no Portugal de há cem anos, num país com um império colonial africano, os militares, as Forças Armadas, Exército e Marinha, eram politicamente importantes. Pode até dizer-se que eram os principais agentes, por acção ou inacção, das mudanças políticas, desempatando o sistema quando o sistema bloqueava. Ora em 1926 havia esse bloqueio: havia a força dominante do sistema. os “democratas”, já sem Afonso Costa, sucedido por António Maria da Silva, o “engenheiro das revoluções”; havia uma oposição conservadora, com católicos, monárquicos e republicanos, críticos dos “democratas” e do seu sistema; e havia uma “esquerda radical” sindicalista, proletária e proto-revolucionária. Estas três forças não se aliavam nem se entendiam entre si para governar.

Salazar e o Estado Novo

Quando o que está já não tem credibilidade nem capacidade para continuar e o que se apresenta como alternativa ainda não tem força para se impor, a força de desempate é quase sempre a força. Aqui, foi a força das armas, foram os militares. E os militares arrancaram de Braga, numa conspiração de capitães e tenentes, alguns medalhados da Flandres, como o capitão José da Luz Brito, que deu a voz inicial da revolta pelo Regimento de Infantaria 8, levando Gomes da Costa, para garantir a respeitabilidade do generalato.

Os militares criaram as raízes do novo sistema e o “tecnocrata” António de Oliveira Salazar, ministro das Finanças da Ditadura a partir de Abril de 1928, equilibrou as finanças públicas. A partir daí, criou um sistema político nacional-conservador e autoritário que duraria até ao penúltimo quartel do século XX. Salazar tinha pensamento político – como lembrou Manuel de Lucena, terá sido talvez o único pensador político português do século XX que governou. O pensamento político de Afonso Costa era uma adaptação do radicalismo jacobino francês a Portugal; e depois o de Cunhal, que nunca governou, era também uma adaptação do marxismo-leninismo ao nosso país.

Salazar era um pessimista antropológico augustiniano, com raízes na terceira via católica dos Papas Sociais e na crítica racionalista da democracia de Charles Maurras. Era, sobretudo, um pensador com convicções, que considerava a nação portuguesa, a sua integridade e identidade, o valor principal a defender.

Ao mesmo tempo, não é um doutrinário, era um realista ou, quando necessário, mesmo um pragmático. Por isso não quis restaurar a monarquia nem revogar a Lei de Separação do Estado e da Igreja vinda da Primeira República e explicou porquê. Além disso, era cerebral, frio, nada emocional, nada retórico. Era também um homem de sínteses, cujos discursos ocupam vinte centímetros de biblioteca. E tinha um humor sarcástico, às vezes cortante.

Foi também, no início dos anos trinta, protagonista de uma solução centrista, no quadro dos poderes reais em Portugal, entre os fascistizantes nacionais sindicalistas de Rolão Preto e os republicanos conservadores à Cunha Leal. O Regime foi autoritário, antipartidário e com uma clara abertura aos valores católicos e à trilogia “Deus Pátria, Família”. Apanhou um país paupérrimo, com uma das maiores taxas de iliteracia da Europa e quase sem obras públicas desde 1890.

Claro que era mais fácil governar e fazer obra sem oposição activa, do que em democracia partidária. E o Estado Novo foi, em parte, um Estado de obras – barragens, escolas, a segunda industrialização. Nos últimos anos do Estado Novo aproximámo-nos, em capitação, dos países ricos da Europa, como recentemente esclareceu Nuno Palma e já constava das séries estatísticas.

Mas à força de durar e mandar, Salazar criou e moldou um regime e um sistema que só funcionavam com ele e que só muito dificilmente lhe poderiam sobreviver. E não sobreviveram. A guerra de África gerou um progressivo descontentamento nos quadros médios do Quadro Permanente de Oficiais e o espírito do tempo mostrava-se contrário ao “exotismo” do império português. Depois, Marcelo Caetano, o líder da comissão liquidatária do regime salazarista, era alguém a quem não faltava inteligência, mas a quem faltava decisão.

Mário Soares e a Terceira República

Resolvida a questão da guerra de África com uma “descolonização exemplar”, feita a contenção do radicalismo comunista no 25 de Novembro, os militares retiraram-se para uma vigilância mais ou menos simbólica da “jovem democracia”, via Conselho da Revolução. E com a Constituinte e a Constituição de 1976, o país, regressado ao rectângulo pré-Expansão, criou o seu sistema.

O político e símbolo por excelência deste sistema foi Mário Soares. Começara por ser comunista, mas o “golpe de Praga” abalou as suas convicções. Integrou-se na oposição democrática ao Estado Novo e, nessa qualidade, foi o primeiro político não-comunista a pronunciar-se, em 1965, pela entrega do Ultramar.

Beneficiou da política norte-americana de identificar e apoiar (aqui e noutros países) opositores não-soviéticos ao regime e em 1968, bem apoiado internacionalmente, divulgou na Europa o escândalo conhecido por “Ballet Rose”. Depois desta sua iniciativa, a PIDE conseguiu vencer a relutância de Salazar em dar importância aos adversários políticos que não pertencessem ao Partido Comunista e levou-o a fixar-lhe residência em São Tomé e Príncipe, ao abrigo da legislação da Primeira República. O exílio causou perturbação no então governador de São Tomé que, receando que o desterrado “armasse confusão”, pediu aos interesses capitalistas na ilha que lhe arranjassem uma ocupação.

Com Marcelo Caetano, Soares voltou à então Metrópole e tornou-se o líder da oposição democrática. Outra vez, foi penalizado com o exílio; e quando foi proibido de voltar a Portugal, uma alta figura do marcelismo, em nome do Presidente do Conselho, pediu a um homem do petróleo, também banqueiro e com um banco em Paris, para dar um lugar de consultor ao exilado político.

Em 1973, com o regime agonizante, fundou-se, em Bona, com o patrocínio da Internacional Socialista, o Partido Socialista. E em 1974, depois do 25 de Abril, o Dr. Soares voltou ao país e foi para o governo. Foi particularmente activo na entrega do Ultramar, como toda a nova classe política – salvo o Prof. Adelino da Palma Carlos, que não quis colaborar na “descolonização exemplar” e, patrioticamente, se demitiu. Soares não parece ter-se incomodado muito com os custos humanos da descolonização, nem tão pouco com o facto de, depois do 28 e Setembro de 1974, haver mais presos políticos em Portugal do que nas vésperas do 25 de Abril. Só se começou a incomodar no princípio de 1975, quando percebeu que a marcha da revolução, a continuar, marcharia sobre ele e sobre os dele como já tinha marchado sobre os “fascistas”. E foi então um resistente às forças comunistas e da esquerda radical.

Era, pessoalmente, uma pessoa civilizada, com coragem física e capacidade de diálogo e discussão com adversários – falo à vontade, porque fui sempre seu inimigo político. Mas foi e será sempre, junto aos capitães do MFA, o símbolo da descolonização. E o símbolo acabado do regime, do sistema e do que tem de compadrio.

Como Afonso Costa foi o símbolo da Primeira República e Salazar do Estado Novo, o grande símbolo do regime e do sistema, para o bem e para o mal, foi e é o Dr. Mário Soares. Pelo que tê-lo por modelo e pretender emergir como anti-sistémico parece-me ou desprovido de toda a lógica ou mais um exemplo dos perigos e armadilhas da retórica. Mas uma coisa é certa: não deixa de ser esclarecedor.

 

 

 

 

 

 

 

 

FIM

 

O Venturismo é de extrema-direita?

Resposta recorrendo a uma grelha de análise de Emmanuel Todd

21.10.25 | Álvaro Aragão Athayde

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André Ventura não queria, mas vai mesmo ser candidato à Presidência da República

 

Hitlerismo,

Trumpismo,

Netanyahuismo,

Le Penismo, Macronismo


Por Emmanuel Todd

L’original en français “Hitlérisme, trumpisme, netanyahisme, lepénisme, macronisme” 
The English translation “Hitlerism, Trumpism, Netanyahuism, Le Penism, Macronism” 
Tradução automática para português da tradução em inglês “Hitlerismo, Trumpismo, Netanyahuismo, Le Penismo, Macronismo

 

Uma abordagem comparativa e expressionista

 

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Emil Nolde, Masks Still life, 1911


As referências à década de 1930 multiplicam-se. A degeneração da democracia americana parece remeter-nos para a da República de Weimar, na Alemanha. Trump, com o seu prazer pela violência e pela mentira, com o seu exercício do mal, remete-nos irresistivelmente para Hitler. Na Europa, a ascensão de movimentos categorizados como de extrema-direita obriga-nos a rever a nossa história.

No entanto, as sociedades ocidentais já não se parecem com o que eram na década de 1930. Envelheceram, tornaram-se consumistas e orientadas para os serviços, as mulheres emanciparam-se e o desenvolvimento pessoal substituiu a fidelidade partidária. Como é que isto se compara com as sociedades dos anos 30: jovens, frugais, industriais, da classe trabalhadora, dominadas pelos homens, filiadas em partidos? Foi esta distância sócio-histórica que me levou a considerar, a princípio, até agora, inválido o paralelo entre a “extrema-direita” do presente e a do passado. Mas as doutrinas políticas existem, hoje como ontem, e não podemos simplesmente postular a impossibilidade, por exemplo, de um nazismo dos idosos, de um Franquismo consumista, de um Fascismo das mulheres emancipadas ou de um LGBTismo da Cruz de Fogo.

Chegou o momento de comparar as doutrinas do nosso presente com as da década de 1930. Eis um esboço do que seria um estudo comparativo de cinco fenómenos históricos: Hitlerismo, Trumpismo, Netanyahuismo, Le Penismo. Acrescentarei brevemente “Macronismo” no final. O Extremismo Centrista e Pró-Europeu que está a conduzir a França ao caos obriga-nos a examinar isto. Será que este extremismo é assim tão centrista?

Esta será uma abordagem impressionista, sem qualquer pretensão de exaustividade ou mesmo de coerência, cujo objectivo é abrir caminhos para o pensamento, não tirar conclusões. Estou a exagerar características e cores para relacionar os conceitos. Estou a exagerar deliberadamente para acompanhar ou mesmo antecipar a aceleração da história. Uma abordagem expressionista seria talvez uma metáfora mais apropriada.

Para ler o resto do artigo (em tradução automática não revista) clicar aqui.

 

 

O Venturismo é de extrema-direita?


Recorrendo à grelha de análise que Emmanuel Todd utilizou no artigo supra diria que não, diria que é um movimento popular conservador.

Diria que os locais, os indígenas, estão a reagir negativamente à brusca entrada de uma grande quantidade de não-locais, de alienígenas, não-locais que, do ponto de vista dos locais, têm um aspecto estranho, usam umas vestes estranhas, falam uma lingua estranha, têm hábitos estranhos e, por vezes, são agressivos, ou parecem sê-lo.

Creio mesmo que a reacção negativa decorre não tanto dos número, ou características, dos não-locais que entraram mas mais do facto de terem entrados muitos em muito pouco tempo, tema sobre que já me debrucei em Setembro de 2018, vide Migração em Massa.

 

 

 

 

 

 

 

 

FIM

 

Revolutionary Yiddishland

20.10.25 | Duarte Pacheco Pereira

Earliest known example of written Yiddish from the Machzor of Worms, Germany, 1272.

Yiddish, historically Judeo-German or Jewish German,
is a West Germanic language historically spoken by Ashkenazi Jews.

 

Yiddishland map

Yiddishland map

 

 

A Review of

Revolutionary Yiddishland

A History of Jewish Radicalism


Brenton Sanderson • The Unz Review • January 30, 2018 • 10,600 Words • Has Comments

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Revolutionary Yiddishland: A History of Jewish Radicalism

 

Alain Brossat and Sylvie Klingberg’s Revolutionary Yiddishland: A History of Jewish Radicalism was first published in France in 1983. A revised edition appeared in 2009 and an English translation in 2016. Intended for a mainly Jewish readership, the book is essentially an apologia for Jewish communist militants in Eastern Europe in the early to mid-twentieth century. Brossat, a Jewish lecturer in philosophy at the University of Paris, and Klingberg, an Israeli sociologist, interviewed dozens of former revolutionaries living in Israel in the early 1980s. In their testimony they recalled “the great scenes” of their lives such as “the Russian Civil War, the building of the USSR, resistance in the camps, the war in Spain, the armed struggle against Nazism, and the formation of socialist states in Eastern Europe.” While each followed different paths, “the constancy of these militants’ commitment was remarkable, as was the firmness of the ideas and aspirations that underlay it.” Between the two world wars, communist militancy was “the center of gravity of their lives.”

While communism in Europe in the early- to mid-twentieth century was characterized by economic dysfunction, systematic oppression, summary executions, and the elimination of entire ethnic groups, Brossat and Klingberg wistfully recall it as a time when European Jewry “failed to achieve its hopes, its utopias, its political programs and strategies.” Instead, the messianic dreams of radical Jews were “broken on the rocks of twentieth-century European history.” A product of their ethnocentric infatuation with the “romance” of Jewish involvement in radical political movements, Revolutionary Yiddishland is Brossat and Klingberg’s hagiographic attempt to resurrect a history that is today “more than lost, being actually denied, even unpronounceable.”

The unstated reason for this omission lies in the determination of Jews to absolve their co-ethnics of any responsibility for the crimes of communism, and to ensure the advent of German National Socialism is always framed in a way that conduces to a simplified narrative of saintly Jewish victimhood and German (and by extension White European) malevolence. Maintaining this narrative is supremely important for the legions of Jewish “diversity” activists and propagandists throughout the West, given the status of “the Holocaust” as the moral and rhetorical foundation of today’s White displacement agenda. Invocation of this narrative is reflexively used to stifle opposition to the Jewish diaspora strategies of mass non-White immigration and multiculturalism. By contrast, free discussion of the Jewish role in communist crimes undermines Jewish pretentions to moral authority grounded in their self-designated status as history’s preeminent victims. This polarity accounts for the fact that, since 1945, over 150 feature films have been made about “the Holocaust” while the number of films that have been made about the genocide of millions of Eastern Europeans can be counted on one hand — and none have been produced by Hollywood.

To read the full article and readers’ comments, click here.

 

 

 

 

 

 

 

 

END

 

O pior é o mundo lá fora

Por Jaime Nogueira Pinto no Observador às 00:18 de 11 de Outubro de 2015

12.10.25 | Álvaro Aragão Athayde

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The secret world of gentlemen's clubs

 

“Era em circunstâncias idênticas” – escrevia Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra – que Granville, “olhando…para todos os lados do horizonte político e social e não vendo senão presságios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a pátria, dizia, banhado em júbilo, quase em êxtase: – Meu Deus! Que deliciosas noites se vão passar no Club”.

Hoje, as circunstâncias voltaram a ser idênticas. Ainda que o mundo lá fora não esteja para júbilos e um rol de desgraças se abata sobre “o sistema”, vamos certamente poder continuar a contar com “deliciosas noites” nos nossos “clubes de jornalistas” de referência.

Da República Checa ao Japão

Que dizer das eleições parlamentares na República Checa, de 3 e 4 de Outubro, ganhas pelo ANO, um partido de “extrema-direita” com um programa de realismo em política externa, de baixa de impostos, aumento de pensões, controle de imigração e poucas ou nenhumas preocupações verdes?  É que o partido dos “cidadãos descontentes”, com 35% do voto popular e 80 deputados eleitos, não deve ter grande dificuldade em fazer governo com o apoio de mais dois partidos de uma direita ainda mais extrema – o Partido da Liberdade e Democracia Directa e o chamado Partido dos Motoristas.

E das eleições para a liderança do partido da direita que está no governo no Japão, no passado Sábado? Quem as ganhou foi Sanae Takaichi, uma “hard-line conservative”, segundo o New York Times, que assim se torna a primeira mulher indigitada para chefe do Executivo no Japão.

França: Macronia e carnificina eleitoral 

Em França a crise da tripolarização continua, sob a agitada regência de Macron, em permanente gesticulação internacional e marcial para abafar a cacofonia doméstica. O desfile dos candidatos a primeiro-ministro prossegue. Agora foi a vez de Sébastien Lecornu, o primeiro-ministro que permaneceu 27 dias no cargo, renunciar, da noite para o dia, à chefia de um governo que durou 14 horas – das 19h40m de Domingo, 5 de Outubro, às 9h45m de Segunda-Feira, 6 de Outubro.

Por umas horas, o governo ainda conseguiu juntar macronistas de várias orientações e algumas personalidades de Les Républicans, compreendendo a “direita civilizada”. Mas foi dessa “direita civilizada” que chegou  a ruptura, quando Bruno Retailleau, de Les Republicans (ex-ministro do Interior e considerado da “linha dura”) manifestou o seu descontentamento perante um governo, cuja “composição não reflectia a ruptura prometida”.A crítica foi publicada na rede social X menos de duas horas depois do anúncio do governo. Assim, na noite de Domingo, caía ainda antes de ser submetida ao parlamento a solução Lecornu, cozinhada pelo Centrão, ignorando as oposições à direita e à esquerda (do Rassemblement National  e dos Insubmissos).

Na Quarta-Feira, 8 de Outubro, o Figaro publicava os resultados de um inquérito à opinião pública. Quem era o principal responsável pela crise política, em França? O resultado não surpreendia: para 57% dos inquiridos, era Macron. E como sair da crise, que paralisava o país, há vários meses? Para a maioria dos inquiridos (60%) só com uma dissolução da Assembleia Nacional e novas eleições legislativas. Sempre segundo as sondagens do Figaro, 7 em cada 10 franceses queria a demissão de Macron, sendo que, desses 70%, 48% se diziam “muito favoráveis” à demissão do Presidente e 22% apenas “favoráveis”.

Dizia ainda ao Figaro um observador próximo de Les Republicains que, “se houvesse uma dissolução, ia ser uma carnificina eleitoral”. E como a “carnificina” atingiria, sobretudo, o centro macronista e os seus partidários, o Presidente francês vai multiplicando os gestos belicistas, procurando aparecer como o grande campeão da russofobia.  Para a França da V República, com instituições criadas por De Gaulle, que fizerem do Presidente a chave constitucional de todo o sistema, a agitação de um chefe do executivo internamente fraco, hesitante e ambíguo e internacionalmente extridente não augura nada de bom.

Levados por este clima, e não querendo deixar para a Direita Nacional o papel de impulsionadores da iniciativa, 104 parlamentares de esquerda, na maioria do La France Insoumise, apresentaram à Assembleia Nacional uma proposta de destituição do Presidente da República. Na apreciação prévia, o secretariado do parlamento chumbou a moção, com a abstenção dos deputados do Rassemblement National.

A França vive um momento político c omplicado, de tripolarização, com três blocos político-partidários fortes: a direita do Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella, o centro de Emmanuel Macron e Gabriel Attal e a Esquerda Radical dos Insubmissos de Mélanchon e dos Socialistas. Três blocos só capazes de se entenderem a dois para bloquear o terceiro.  Restam a “direita moderada” de Les Republicains, e a Reconquête de Zémmour.

Na sondagem Toluna Harris Interactive para a RTL, de 8 de Outubro, numa primeira volata, os candidatos presidenciais Le Pen e Bardella ficariam largamente à frente, com 34% e 35% dos votos, respectivamente; isto é, com mais 12 pontos do que na primeira volta de 2022 (23%). O mais bem classificado do centro alargado à direita moderada seria Edouard Philippe (15/16%) de Les Republicains, e, à esquerda, Jean-Luc Mélanchon teria 14%. Contando com o tradicional apelo a uma “frente anti-fascista” na segunda volta, resta saber qual deles passaria; e se o número de centristas e centro-direitistas a votar por Mélanchon seria suficiente para colmatar o deficil face ao Rassemblement, ou se os esquerdistas de Mélanchon votariam em Edouard Philippe – para muitos deles, um perigoso protofascista.

Mas pior ainda para a Esquerda e o Centrão é o cenário das eleições parlamentares. Uma sondagem da Opinium Way para CNEWS dá o Rassemblement National à frente, com 33%, e 4% para a Reconquête. A Esquerda Unida, do Nouveau Front Populaire, ficaria pelos 25% e, ao centro, o macronismo cairia para 15% e Les Republicains subiriam para 13%.

Na esquerda há uma “guerrilha” dos Verdes e dos Socialistas contra os Insubmissos. Ou seja, em França, há, neste momento, uma “Extrema-Direita” (RN, Reconquête, Debout la France, Divers Droites) que soma 41% das intenções de voto; uma “Direita moderada” (Les Républicains) com 13%; o centro macroniano com 15% e a Esquerda e a Extrema Esquerda com 25%.

Esta é a penosa realidade política no segundo país da União Europeia, parte integrante do rol de desgraças que se abate sobre o mundo e sobre os seus habituais comentadores e pivots noticiosos.

A última gota foi quando, na noite de Quarta-Feira, veio o anúncio de que Trump, o arqui-vilão dos folhetins comentatórios, tinha conseguido a paz em Gaza.

Nem tudo está perdido

Mas nem tudo está perdido e  ainda há lugar para algum júbilo: o facto de Trump não ter conseguido o Nobel da Paz promete proporcionar “deliciosas noites” televisivas, com imagens em loop do vilão a pedir o prémio e cortes cirúrgicos naquela parte em que diz “eles nunca mo vão dar”. Há que encontrar júbilo onde se pode para que a vida nos clubes de informação continue. A vencedora do prémio, Maria Corina Machado, tem, pelo menos, o mérito de não ser Trump… e o facto de ser a líder da resistência anti-comunista venezuelana pode também ser ignorado.

Estava-se tão bem no Clube se não houvesse mundo lá fora!

Ler aqui o original e os comentários dos leitores.

 

 

 

 

 

 

 

 

FIM

 

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